É só uma criança!

Já ouvi esta frase tantas vezes!

“É só uma criança, não percebe…”  “É só uma criança, está a fazer birra.”

Uma criança não é inteligente? Não tem sentimentos? Não tem vontades?
A criança é um ser forte, inabalável, destemida, repleta de esperança e optimismo inesgotáveis.

Quantas vezes é que nós adultos estamos nestas situações:
– Temos que ir a um sítio onde não conhecemos ninguém e somos obrigados (por convenção social) a socializar?
– Tivemos um dia difícil e, ao chegar a casa, somos desagradáveis para as pessoas que amamos.
– Não nos apetece jantar.
– Não nos apetece tomar banho, mas fazemo-lo pois vamos estar fora de casa/estar com outras pessoas.
– Tentamos ter uma conversa com o nosso companheiro/a, mas ele/a está com a cabeça noutro lado.
– Tentamos expressar os nossos sentimentos, mas não os conseguimos comunicar.
– Magoamos alguém emocionalmente e não queremos pedir desculpa.
– Estamos tão frustrados com uma situação particular que falamos alto e somos desadequados.
– Estamos tão chateados que provocamos o nosso companheiro/a para nos sentirmos um pouco melhor.
– Mostramos o nosso desagrado pois alguém está a demorar imenso tempo e já é a nossa vez!
– Temos ciúmes.
– Ficamos chateados se alguém vem a nossa casa e mexe nas nossas coisas sem pedir.
– Temos medos irracionais.
– Temos medo, injustificado, que o nosso companheiro já não goste de nós.
– Somos desadequados pois queremos atenção.
– Não nos apetece arrumar ou limpar pois queremos fazer algo que nos dê prazer.
– Somos cáusticos com o colega de trabalho pois só dormimos 3 horas.
– Somos rabugentos pois não ainda não comemos e não temos consciência que precisamos é de comer e deixamos o ciclo prolongar-se.
– Somos rabugentos pois estamos num “dia não”.
– Queremos falar, mas não sabemos usar as palavras certas.
– Começamos a chorar pois deixamos cair a embalagem do arroz e agora há centenas de grãos espalhados no chão da cozinha.
– Queremos colo.
– Não nos apetece dormir pois tivemos um dia em cheio e só queremos fazer mais coisas!

Vamos reler esta lista, mas agora imaginemos uma criança a viver estas situações. Não se aplica a ela também? Será que nós adultos não passamos de crianças em ponto grande? Todas estas situações aplicam-se a adultos e crianças pois somos todos seres, seres que sentem, que pensam, que vivem. Ser criança não é a ausência de emoções grandes, é a ausência de auto-controle, é não saber gerir a dimensão das suas emoções, é não ter noção do que é “socialmente correcto”. Mas as emoções, na sua essência, são as mesmas.

É só uma criança!

Se nós adultos tivéssemos que gerir a panóplia de emoções e situações novas  – tudo ao mesmo tempo e enquanto aprendemos aptidões básicas como fazer xi-xi no bacio – como uma criança faz, não nos seria possível levar uma vida “normal”. De uma só vez uma criança tem que aprender a comunicar, aprender a movimentar-se, aprender a cair e levantar-se, aprender a usar palavras, aprender a compreender os outros (adultos e crianças que também elas estão a aprender a comunicar), partilhar a atenção dos outros, aprender a partilhar, comer coisas que não gosta, descobrir o mundo que a rodeia, conhecer pessoas novas, conhecer pessoas estranhas, perceber que o mundo não gira à volta dela, descobrir coisas novas todos os dias, descobrir emoções novas todos os dias.

É só uma criança!
É um ser que, apesar de gerir tantas emoções e situações diferentes, tem sempre um sorriso para nos dar, alegra-se com o pormenor mais minúsculo, acorda no dia seguinte sem rancor ou preconceitos. É um ser que nos destrói a casa toda e num só segundo nos derrete o coração com um abraço. Uma criança é um ser a aprender a viver. E cabe-nos a nós adultos acompanhá-la nesta viagem, com respeito e dignidade, sem nos esquecermos que já fomos crianças e que, essencialmente, partilhamos as mesmas emoções.

A criança é um pequeno ser com amor e sentimentos do tamanho do universo!

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