Parto – Questões Práticas e Burocráticas

Durante a gravidez surgem muitas questões.
Muitíssimas, variadas, estranhíssimas, raríssimas, questões. E temos de encontrar resposta para TODAS elas, porque assim vamos tecendo uma teia de segurança, e antecipamos várias situações que possam surgir (mesmo que NUNCA surjam), e isso é importante para acalmar o coração da mãe.
De tantos tipos de questões que surgem, hoje vamos falar de questões “chatas”, mas práticas e extremamente importantes:
- Legislação: O que diz a legislação sobre os planos de parto, e sobre as MINHAS preferências para o parto, acompanhantes, etc…?
- OMS: Quais as directrizes da OMS?
- Associações que me possam defender: Quais são os contactos que posso usar em caso de necessidade?
- Médicos: Procurar o médico obstetra com o qual a mulher se sinta segura e amparada nas suas decisões.
- Doula: Onde procurar? Preciso de uma Doula?
- Onde Parir: Parir no Hospital, em casa, ou casa de partos? Onde procurar informação?
- Plano de Parto: O que preciso colocar?
- Amamentação: como posso ter ajuda?
Legislação
Conforme o n.º 2 do artigo 12.º da Lei n.º 15/2014, de 21 de março, que veio revogar a Lei n.º 14/85, de 6 de julho, é reconhecido à mulher grávida internada em estabelecimento de saúde o direito ao acompanhamento por qualquer pessoa por si escolhida, em todas as fases do trabalho de parto.
Esta questão aplica-se também a cesarianas. Ver lei aqui: http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=2292&tabela=leis&so_miolo=
Em relação ao Consentimento Informado, que muitas vezes é impresso na última consulta da grávida, antes de se propor uma indução ou durante a admissão da grávida aos serviços de saúde, já em trabalho de parto (oportuno, hein…), os profissionais de saúde acabam por coagir as mulheres a assinarem este tipo de documentos, em que basicamente alegam que a mulher foi informada pormenorizadamente acerca de todas as intervenções e protocolos hospitalares.
Ora bem, quem já passou por isso, saberá que NÃO HÁ TEMPO em qualquer fase das nossas visitas pré natais, para nos serem passadas estas informações, nem tampouco nos dão VOZ para DECIDIR quais os procedimentos pelos quais optamos de forma consciente.
Acontece que o consentimento informado, mesmo que assinado, vale zero. É importante que as mulheres tenham noção que é obrigatório que todas as questões por nós colocadas, sejam respondidas, todos os procedimentos a nós (ou aos nossos filhos) executados, sejam explicados e apenas levados a cabo mediante um consentimento da nossa parte. Face a tudo isto, surge a necessidade do Plano de Parto, documento SIM válido, que deverá ser enviado previamente para os serviços hospitalares (em caso de parto hospitalar), e se possível “discutido”, e deverá ainda permanecer sempre (SEMPRE) junto à nossa pasta de gravidez.
Falamos mais abaixo sobre o Plano de Parto.
OMS
A Organização Mundial de Saúde, está constantemente actualizada em relação às mais variadas áreas de saúde, nomeadamente saúde materna e fetal, parto e pós-parto.
O que nos diz a Organização Mundial de Saúde, acerca do parto?
Recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) no Atendimento ao Parto Normal
A) Condutas que são claramente úteis e que deveriam ser encorajadas:
1. Plano individual determinando onde e por quem o parto será realizado, feito em conjunto com a mulher durante a gestação, e comunicado a seu marido/ companheiro e, se aplicável, a sua família.
2. Avaliar os factores de risco da gravidez durante o cuidado pré-natal, reavaliado a cada contacto com o sistema de saúde e no momento do primeiro contacto com o prestador de serviços durante o trabalho de parto e parto.
3. Monitorar o bem-estar físico e emocional da mulher ao longo do trabalho de parto e parto, assim como ao término do processo do nascimento.
4. Oferecer líquidos por via oral durante o trabalho de parto e parto.
5. Respeitar a escolha da mãe sobre o local do parto, após ter recebido informações.
6. Fornecimento de assistência obstétrica no nível mais periférico onde o parto for viável e seguro e onde a mulher se sentir segura e confiante.
7. Respeito ao direito da mulher à privacidade no local do parto.
8. Apoio empático pelos prestadores de serviço durante o trabalho de parto e parto.
9. Respeitar a escolha da mulher quanto ao acompanhante durante o trabalho de parto e parto.
10. Oferecer às mulheres todas as informações e explicações que desejarem.
11. Não utilizar métodos invasivos nem métodos farmacológicos para alívio da dor durante o trabalho de parto e parto e sim métodos como massagem e técnicas de relaxamento.
12. Fazer monitorização fetal com auscultação intermitente.
13. Usar materiais descartáveis ou realizar desinfecção apropriada de materiais reutilizáveis ao longo do trabalho de parto e parto.
14. Usar luvas no exame vaginal, durante o nascimento do bebé e na dequitação da placenta.
15. Liberdade de posição e movimento durante o trabalho do parto.
16. Estímulo a posições não supinas (deitadas) durante o trabalho de parto e parto.
17. Monitorar cuidadosamente o progresso do trabalho do parto, por exemplo pelo uso do partograma da OMS.
18. Utilizar ocitocina profilática na terceira fase do trabalho de parto em mulheres com um risco de hemorragia pós-parto, ou que correm perigo em consequência de uma
pequena perda de sangue.
19. Esterilizar adequadamente o corte do cordão.
20. Prevenir hipotermia do bebé.
21. Realizar precocemente contacto pele a pele, entre mãe e filho, dando apoio ao início da amamentação na primeira hora do pós-parto, conforme directrizes da OMS sobre o aleitamento materno.
22. Examinar rotineiramente a placenta e as membranas.
B) Condutas claramente prejudiciais ou ineficazes e que deveriam ser eliminadas:
1. Uso rotineiro de enema.
2. Uso rotineiro de raspagem dos pelos púbicos.
3. Infusão intravenosa rotineira em trabalho de parto.
4. Inserção profilática rotineira de cânula intravenosa.
5. Uso rotineiro da posição supina durante o trabalho de parto.
6. Exame rectal.
7. Uso de pelvimetria radiográfica.
8. Administração de ocitócicos a qualquer hora antes do parto de tal modo que o efeito delas não possa ser controlado.
9. Uso rotineiro da posição de litotomia com ou sem estribos durante o trabalho de parto e parto.
10. Esforços de puxo prolongados e dirigidos (manobra de Valsalva) durante o período expulsivo.
11. Massagens ou distensão do perineo durante o parto.
12. Uso de tabletes orais de ergometrina na dequitação para prevenir ou controlar hemorragias.
13. Uso rotineiro de ergometrina parenteral na dequitação.
14. Lavagem rotineira do útero depois do parto.
15. Revisão rotineira (exploração manual) do útero depois do parto.
C) Condutas utilizadas com insuficientes evidências que apoiem a sua clara recomendação e que devem ser utilizadas com precaução até a conclusão de novos estudos:
1. Método não farmacológico de alívio da dor durante o trabalho de parto, como ervas, imersão em água e estimulação nervosa.
2. Uso rotineiro de amniotomia precoce (romper a bolsa d’água) durante o início do trabalho de parto.
3. Pressão no fundo uterino durante o trabalho de parto e parto.
4. Manobras relacionadas à protecção ao perineo e ao manejo do polo cefálico no momento do parto.
5. Manipulação activa do feto no momento de nascimento.
6. Utilização de ocitocina rotineira, tracção controlada do cordão ou combinação de ambas durante a dequitação.
7. Clampeamento precoce do cordão umbilical.
8. Estimulação do mamilo para aumentar contracções uterinas durante a dequitação.
D) Condutas frequentemente utilizadas de forma inapropriada:
1. Restrição de comida e líquidos durante o trabalho de parto.
2. Controle da dor por agentes sistémicos.
3. Controle da dor através de analgesia epidural.
4. Monitoramento electrónico fetal.
5. Utilização de máscaras e aventais estéreis durante o atendimento ao parto.
6. Exames vaginais frequentes e repetidos especialmente por mais de um prestador de serviços.
7. Correcção da dinâmica com a utilização de ocitocina.
8. Transferência rotineira da parturiente para outra sala no início do segundo estágio do trabalho de parto.
9. Cateterização da bexiga.
10. Estímulo para o puxo quando se diagnostica dilatação cervical completa ou quase completa, antes que a própria mulher sinta o puxo involuntário.
11. Adesão rígida a uma duração estipulada do segundo estágio do trabalho de parto, como por exemplo uma hora, se as condições maternas e do feto forem boas e se houver progresso do trabalho de parto.
12. Parto operatório (cesariana).
13. Uso liberal ou rotineiro de episiotomia.
14. Exploração manual do útero depois do parto.
Associações
Que associações temos em Portugal, que me possam ajudar em qualquer das fases da gravidez, parto ou pós-parto?
http://www.associacaogravidezeparto.pt
http://www.apf.pt/gravidez-e- parentalidade/apoio-maternidade- e-paternidade
http://www.apeobstetras.com
http://www.ahcp.com.pt
http://www.maesdagua.org
http://neuropediatria.pt
Médicos
É importante que te sintas bem com o médico que te vai atender durante a gravidez. Que seja alguém com quem te sintas livre para colocar QUALQUER questão, e te responda com respeito. De norte a sul do país, cada vez mais temos verificado médicos sensíveis no acompanhamento da mulher grávida, e que apoiam e dão a informação que disponibilizam de modo a apoiarem a mulher.
Aqui não colocarei uma lista, porque cada uma de nós, terá as suas necessidades específicas, e terá mais ou menos empatia com determinado médico.
Aqui pretendo apenas vincar que o MELHOR médico para TI, é aquele que te apoia, e com o qual te sentes bem e respeitada.
Doula
Não sendo coerente com a questão acima, vou colocar aqui um site onde podes pesquisar a Doula ideal para ti.
Uma Doula é um colo sempre disponível para te abraçar, uma pessoa de “fora” que acaba por ser a tua rocha, o teu porto seguro e também da tua família, durante a jornada da gravidez/parto e pós-parto. Uma pessoa isenta, neutra, que terá como único foco, apoiar-te e munir-te de TODA a informação que DESEJARES.
Poderá também fazer-te uma preparação para o parto, um apoio pós-parto e ser o teu “foco” no momento no parto.
Há várias Doulas com abordagens diferentes e actuações diferentes, pesquisa a que mais se enquadra com as TUAS necessidades.
http://www.doula.pt
Onde Parir?
Sendo uma gestante de baixo risco, quando pensas em ter o teu bebé, onde te sentirias mais segura?
Em casa?
Num Hospital?
Numa casa de Partos?
Este tópico serve apenas para que seja claro que o parto em casa é legal, sendo importante que se contactem profissionais que possam dar todo o apoio necessário, assim como assegurar uma transição para o hospital, caso seja necessário (Plano B).
Em Portugal não consegui obter lista de casas de Parto.
Relativamente a Hospitais, há alguns hospitais “amigos dos bebés” e recentemente outros que tentam uma abordagem mais livre para com a grávida. Seja como for, o importante é visitar o hospital, levar o teu plano de parto e falar sobre os procedimentos hospitalares de cada estabelecimento que visitares. Pede os e-mails do enfermeiro responsável, e encaminha o teu plano de parto.
Não havendo uma lista de casas de parto ou hospitais “amigos das mães/famílias” coloco o link para os hospitais amigos dos bebés, e parteiras.
http://www.unicef.pt/artigo.php?mid=18101114&sid=1810111414&cid=5376
http://maesdagua.org/quero-ter- um-parto- na-agua/lista- de-parteiras/
Plano de Parto
O plano de parto é um documento que podes elaborar, onde expressas as tuas vontades acerca do parto, para os momentos em que não estejas em posição para falar Trata-se de uma salvaguarda das tuas vontades, que pode sempre ser relembrada pelo teu companheiro ou
acompanhante. Há várias formas de o fazer, -visuais, listas, pontos, etc..- o essencial é que aborde TUDO o que sentires que seja importante para ti no momento do parto, inclusivamente um plano B.
Deixo abaixo duas abordagens a planos de parto, onde poderás encontrar boa informação.
http://www.pinterandmartin.com/the-positive- birth-book- visual-birth- plan-free-download.html
http://www.associacaogravidezeparto.pt/wp-content/uploads/2015/02/Plano- de-Parto-APDMGP.pdf
Amamentação
A amamentação é uma questão relacionada com o pós-parto, MAS deve ser estudada durante a gravidez, porque assim que o bebé nasce, tem de ser alimentado, e é positivo que vamos preparadas para suprir as suas necessidades, -caso queiramos amamentar- e tomemos a decisão INFORMADA e CONSCIENTE de como o queremos fazer.
Assim, deixo abaixo alguns links que são positivos, de apoio GRATUITO a mães e famílias que tenham questões sobre amamentação, e pretendam obter informação ou apoio.
http://www.llli.org/Portugal.html
http://www.vamosdardemamar.org
https://www.unicef.pt/docs/manual_aleitamento_2012.pdf
https://www.facebook.com/IBFAN.Portugal/
Contactos não gratuitos, ou com a possibilidade de não serem gratuitos
http://www.camsdeportugal.pt/sobre_nos.php
Parece um universo de coisas, mas na verdade tens meses para te debruçares sobre isto, para que na hora H estejas tranquila e te possas entregar à Partolândia com confiança.
A informação é poder.
Empodera-te!
Carla Santos




